Dez anos após a publicação de um livro inspirado em Ferreira de Castro, a comunidade educativa de Oliveira de Azeméis reuniu-se para lançar O Segredo do Mercado Antigo. O evento celebrou a passagem do estatuto de consumidores para o de autores, numa forte defesa do papel da escrita e dos livros físicos.
“Hoje em dia, com menos de um ano de idade, 3, 4, 5… muitas famílias já colocam um tablet nos meninos para que eles possam comer a sopa.” O alerta, lançado em tom de reflexão por Rui Luzes Cabral, vereador da Educação de Oliveira de Azeméis, serviu de pano de fundo para um acontecimento que nadou contra a corrente do quotidiano. Na Escola de Areosa, o lançamento do livro O Segredo do Mercado Antigo transformou-se numa celebração intergeracional da palavra escrita, juntando no mesmo espaço os novos autores do 4.º ano e os jovens que, em 2016, ali haviam escrito a obra Emigrantes.
O evento, intitulado “Areosa: Escola de Autores”, surgiu para apresentar com calma, dignidade e foco a obra literária criada pelos alunos, cujo lançamento inicial tinha ocorrido no ritmo acelerado do mercado à moda antiga. Mas o nome do encontro carrega também um compromisso de futuro. Conforme assumido publicamente, a publicação de dois livros não basta para consolidar o título de “Escola de Autores”, pelo que se estabeleceu o objetivo de integrar esta dinâmica criativa na identidade oficial da escola, publicando obras com maior regularidade.
O “superpoder” de criar em comunidade
Para a diretora do agrupamento de escolas, Ana Rio, o projeto devolveu às crianças o “superpoder” de não serem apenas consumidoras de cultura, mas também autoras. Numa intervenção marcada pelo orgulho, a responsável destacou o ambiente de proximidade da comunidade local como um fator facilitador, algo que considerou “mais complicado” de replicar em grandes cidades ou escolas de grandes dimensões.
A concretização do livro, que nasceu da necessidade de o 4.º ano angariar fundos para a viagem de finalistas, contou com a orientação do professor Ricardo Azevedo e o apoio da Câmara Municipal.. Rogério Ribeiro, presidente da Junta de Freguesia, e Amaro Simões, presidente da Assembleia Municipal, também se associaram aos elogios à capacidade inovadora e criativa da comunidade educativa de Areosa.
Resistência cultural num mundo de ecrãs
As dinâmicas da literacia e da preservação da memória histórica dominaram as intervenções. Rui Luzes Cabral manifestou o seu desconforto com a tendência atual de realização de exames escolares em computadores, ironizando que, em caso de um “apagão” tecnológico, as novas gerações correm o risco de já não saberem deixar um bilhete escrito à mão.
A partir do exemplo do escritor Ferreira de Castro — descrito como o grande embaixador do município de Oliveira de Azeméis —, o vereador incentivou os alunos a manterem o interesse pelos arquivos municipais e pelas gavetas escondidas em suas casas. “Existem histórias também muito interessantes que não são para queimar e que muitas vezes são um puzzle importante para desvendarmos algumas histórias da nossa comunidade”, apontou.
Dez anos depois: “Aquilo que fica são as memórias”
O momento de maior carga emocional da cerimónia aconteceu com o testemunho dos antigos alunos da “geração de 2016”. Agora com 20 anos, os jovens regressaram à sua antiga escola para partilhar o impacto duradouro de terem publicado um livro quando tinham apenas dez anos. O trabalho daquela primeira geração de autores foi desenvolvido sob a coordenação da professora Mónica Gomes, a quem os jovens fizeram questão de dirigir palavras de profundo reconhecimento
“Nós com 10 anos nunca imaginaríamos escrever um livro e fizemos por isso”, recordou uma das antigas alunas, sublinhando o volume de trabalho e a coragem partilhada entre pais, professores e alunos para erguer um projeto desta dimensão. Outra jovem do grupo realçou que o processo criativo conjunto — baseado na adaptação da obra Emigrantes de Ferreira de Castro — os ajudou a compreender a complexa realidade da imigração e incutiu-lhes a responsabilidade de querer saber sobre o mundo atual.
Passada uma década, o veredito dos veteranos foi unânime: “Aquilo que nos fica realmente são as memórias… as representações que nós fizemos sobre a nossa obra, a construção do livro, a escrita do livro e esta convivência”.
No encerramento, o vereador da Educação resumiu o espírito do evento com um apelo à individualidade dos alunos, sob o olhar atento da coordenadora da escola, a professora Mónica Gomes: “Cada um tem que descobrir a sua felicidade. As crianças têm que se descobrir, têm que ser obviamente acompanhadas, mas elas têm que se descobrir.”














