Missa do Galo, de Carlos Te e Manuel Paulo em Matosinhos

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A Missa do Galo segue livremente a estrutura dramática e litúrgica duma missa católica romana. Inspira se nas velhas Missas do Galo transmontanas com desgarradas assentes em motes do Evangelho, acompanhadas a concertina, aqui substituídas por canções.
O galo desta missa e o Homem que ascendeu ao poleiro da ciência e da tecnologia e que, perante o espelho da sua admirável prosperidade, tem um assomo de melancolia ao perceber que, apesar de ter tudo, continua a padecer da inveja, da mesquinhez e da ganância. A missa recorre a metáfora central duma barca que atravessa a Historia num roteiro de factos e alertas contra os perigos da repetição e do esquecimento.
Nesse percurso eucarístico, com vista a redenção e ao perdão, o galo tropeça num paradoxo: o conhecimento concedeu lhe o livre arbítrio que lhe permitiu emancipar se do velho pai castigador, mas, ao mesmo tempo, depositou lhe na alma uma momentânea nostalgia do tempo em que o Pai ralhava com ele pelos erros cometidos.
Vê-se assim confrontado com o preço da liberdade: solidão da responsabilidade.
A missa e o espaço introspectivo que disseca a melancolia proveniente dessa responsabilidade – que ele combate com o consumo enquanto modo de vida, e cujo corolário e o primado da tecnocracia sobre tudo e a ameaça de esgotamento de recursos do planeta.
O processo assenta numa espécie de monologo shakespereano no qual o galo e visitado pelos seus fantasmas interiores, juízes da consciência que o vem julgar por ter substituído o Humanismo dos últimos cinco séculos pelo neo-liberalismo dos últimos trinta anos, onde as pessoas são apenas números e estatísticas.
O veredicto e ser transformado em arroz de cabidela, num sacrifício votivo e solsticial.
Autoria de Carlos Te e Manuel Paulo
Encenação Luisa Pinto
Cenografia Joao Mendes Ribeiro e Catarina Fortuna
Figurinos Catia Barros e Luisa Pinto
Interpretação Antonio Duraes, Elisa Rodrigues, Flora Miranda, Ines Sousa, Isabel
Carvalho, Joao Miguel Mota e Rui David
Músicos Andre Hollanda (bateria/toy piano), Manuel Paulo (piano/teclado), Marco
Nunes (guitarra), Miguel Ramos (Baixo) e Pedro Vidal (guitarra/pedal steel/banjo)
A peça será reposta no Cine-Teatro Constantino Nery de 6 a 15 de Janeiro (terça a sábado às 21h30, domingo às 16h00).

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